POÉTICA DO COTIDIANO

Textos, Frases, Cartas, Poemas, Canções, Diálogos, Interrogações... Todas as palavras que preenchem o nosso dia-a-dia... com muita poesia!

sábado, outubro 15, 2011

SENDO MULHER - Republicando


Ela cresceu acreditando que os homens são melhores que as mulheres, mais fortes e com mais sorte. Sempre desejou na próxima encarnação nascer homem.
O mundo masculino sempre despertou nela mais admiração que o universo feminino – carros, futebol e jogo de dominó.
Então, ela ensinou a sua mente a pensar como homem, ser prático, nada de romantismos, não dá muita importância às pequenas coisas, acreditar que dinheiro era fundamental e que sentimentos não deviam ser revelados.
Apesar de não perder a feminilidade, usar saias, vestidos, bolsas, salto alto e maquiagem, ela chegou a ouvir de um amigo: - Você é mais macho do que eu.
Uma noite ela teve um sonho com uma borboleta que lhe mostrou a beleza da alma feminina. Ela acordou encantada com o sonho e com a linda paisagem que vira.
A partir deste dia, ela decidiu Ser Mulher.
Ser mulher “de verdade”, em seu sentido mais completo.
Ser mulher que não dá o braço a torcer quando tem certeza de suas convicções, mas que é capaz de se derreter em lágrimas só de assistir a um filme no cinema;
Mulher que leva horas escolhendo a cor do batom e do esmalte, da roupa, da calcinha, porém sai correndo feito uma desesperada para socorrer os amigos;
Que gosta de assistir a lutas de boxe, mas prefere ir ao show de Vander Lee;
Que fala dos seus sentimentos, mas, muitas vezes esconde as lágrimas;
Mulher que dá a cara pra bater, e bate, se for necessário, mas que nunca deixa de ver a outra face da moeda;
Que faz tempestades em copos d’água, mas que sempre supera, e se supera;
Que gosta de futebol, mas não sai de casa sem batom e óculos escuros;
Que se valoriza e, por isso mesmo, valoriza os outros;
Que chora descontroladamente por falta de atenção e rir descontroladamente conversando besteiras ao telefone, ou sozinha na frente do computador;
Mulher que tem sonhos, que ama poesia, cinema e música;
Que quer viajar o mundo inteiro e ainda assim casar e ter filhos, e ser feliz pra sempre;
Mulher que tem sorte, mas que acima de tudo, escolheu o Amor!


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Observações da postagem inicial em 06/06/2008

Esse texto era pra ser uma homenagem, e é, mas acabou não sendo uma e sim várias:
Pra começar, homenagem ao Carlinhos Ribeiro, novo grande amigo, que pela conversar e pelo depoimento me inspirou a escrever o texto;
À Marcella Facó – início de uma amizade – que foi o “tema” da conversa que inspirou o texto.
Para Rô, grande amigo também, que por muitas vezes, fez e faz, o papel da borboleta e me ajudou a descobrir o que é ser mulher e que mostrou a importância de ser uma mulher “de verdade”, de crescer e de assumir quem sou;
Para Du, que também é uma das minhas borboletas e que me mostra sempre que posso contar com ele;
Para Tom, que um dia me disse que eu precisava ser mulher no sentido mais amplo da palavra;
Enfim, para todos que participam – ou participaram – da vida minha vida e que me ajudaram de alguma forma a ser quem sou hoje e sei que todos me ajudaram de alguma forma, pelo Amor ou pela dor.

Por fim, a todas as mulheres “de verdade”, que ajudam a tornar este mundo mais belo e mais sensível, e aos homens que não tem vergonha de mostrar e viver seu lado sensível também, mesmo que só de vez em quando.

P.S. Acho que hoje eu superei... e, me superei... rsrssrs

A todos um abraço,

Imcompreendida

terça-feira, setembro 13, 2011

PEQUENO TRATADO SOBRE O (O MEU) AMOR.

“... e foste um difícil começo,
 afasto o que não conheço
 e quem vive outro sonho feliz de cidade
 aprende depressa a chamar-te realidade
 porque és o avesso do avesso
do avesso do avesso...”
Caetano – SAMPA


            Eu não gosto de ser invasiva com a vida das pessoas. Impor minha presença, aprofundar os limites que me estabeleceram é uma coisa quase impensável. É o meu senso de Liberdade e Respeito.
            Por isso não procuro o tempo inteiro, não ligo todos os dias, não imploro companhia. Não invado a vida, só contarás a mim o que quiseres, o que achar necessário. E terá espaço para isso se quiser e haverá também espaço para o silencio, tão necessário e tantas vezes tão difícil de achar. Mas se não sentir reciprocidade, aí já foi... descarto maiores aproximações.
            Porque é assim também que gosto que sejam comigo, não gosto que me invadam, que me adulem, que transgridam minhas regras. Só entra em meu mundo quem eu permito e até onde eu permito. Só conto o que eu quero, se não julgar necessário, falar pra quê, pode ser a menor besteira, pode ser o maior segredo.
Mas todo mundo encara isso como falta de Amor. Não é. De jeito algum. Eu vivo pra dentro e é assim também que amo, pra dentro.
            Vou demonstrar, claro, que amo, nas sutilezas, no olhar, no jeito de me entregar. Dificilmente, nas palavras, talvez nas escritas, nunca nas ditas. Nos convites, nas invenções loucas, nas coisas divididas, nos poucos presentes, nos sorrisos sinceros. Tudo em mim, todo gesto é uma forma de dizer eu te amo, sem precisar ser piegas. A divisão de um sentimento sobre a vida, uma música ou um filme. O Amor por mim é sentido nas afinidades, de pensamento, principalmente. Se pensou igual, fluiu, é isso.
            É preciso um pouco de sensibilidade e percepção, mas com certeza o trato com quem eu amo é diferente com o resto do mundo. Talvez não seja fácil perceber, entendo que as pessoas têm seus próprios medos e limitações, suas próprias formas de amar. O problema é só identificar o Amor, na forma conhecida, não permitir outras.

quarta-feira, agosto 10, 2011


Quando estiveres triste e as coisas não derem certo, pense que ainda és livre. Liberdade é a melhor coisa que se pode ter. Tendo liberdade podes criar tudo, inventar uma nova vida, fazer arte, compôr canções, ir morar em Bariloche, essas coisas que só consegue quem se permite ser Livre.

segunda-feira, julho 18, 2011

Fingimento.

De tanto fingir
chega o dia em que
a gente passa a acreditar.

E foi assim,
de tanto fingir
não te amar
que hoje
já não mais te amo.

domingo, julho 03, 2011

CASTELOS DE AREIA

Eram casados há 27 anos. Mas, agora precisava ir embora. Ela havia mudado muito durante todo esse tempo. Seus hábitos, seus pensamentos, seus desejos eram novos. Precisava viver novas experiências.


Não. Não havia arranjado outro, nem pensava nisso, ainda amava seu marido, tinha certeza. Só precisava mudar, não podia mais morar numa cidade sem praia, sem brisa, sem ar puro. Precisava realizar outros projetos de vida.

Estava pensando nesse assunto há 5 meses, mas a coragem de contar para seu marido não chegava. Até que nesta noite quando estavam deitados para dormir, iniciou o diálogo:

- Carlos, lembra da nossa primeira viagem? Perguntou temerosa.

- Claro que lembro, amor. Foi para aquela cidadezinha da Bahia, que tem uma praia linda... como é mesmo o nome? Esqueci...

- Subaúma.

- Isso, Subaúma, lindo lugar. Disse olhando para o teto, pensativo.

- E você lembra do nosso passatempo lá, além de namorar?

- Fazíamos castelos de areia, depois sentávamos e ficávamos olhando as ondas do mar desfazê-los. Às vezes uma só onda os destruía por completo, outras vezes, era preciso várias ondas. Mas, porque esta lembrança agora?

- Nada! Vamos dormir.

Abraçaram-se e dormiram quietos. Ela não teve coragem mais uma vez e pensou que não iria tê-la nunca. Afinal, Carlos era um bom marido, companheiro, atencioso. Bem, mas ela estava decidida.

E foi assim, que acordou naquela manhã de sexta-feira, com a certeza de que aquele seria um dia decisivo na sua vida. Levantou-se mais cedo, preparou ela mesma o café para os dois, como há muito tempo não fazia.

Durante o café, falou para o marido que precisavam almoçar juntos. Ele achou-a estranha desde a noite anterior e quis saber do que se tratava, mas ela desconversou. Ele foi trabalhar e ela ficou em casa arrumando as malas.

As 12 e meia, ela chegava no restaurante combinado, perto do trabalho de Carlos já esperava ansioso, sabia que naquele momento poderia perder a mulher da sua vida.

Ela deu-lhe um beijo no rosto e sentou-se. Pediram uma massa e um vinho tinto. Almoçaram em silencio. Durante a sobremesa, foi Carlos quem quebrou o gelo:

- eu sei que vai me deixar. Eu só queria saber o porquê.

- Mas... como você sabe?

- Os castelos de areia.

- Sim. Os castelos. Fizeram silêncio por um tempo e Carlos voltou a falar:

- Você estava distante, já tem algum tempo. Eu percebi, mas pensei que fosse só uma fase, que iria passar, preferi ficar calado, na minha. Ontem à noite, entendi que iria me deixar.

- Mas, Carlos, não é bem assim...

- Eu até entendo, quer dizer, não sei se entendo, talvez até entenda, mas não aceito. Mas antes de qualquer coisa, preciso saber quais as ondas que estão te levando. Você arranjou outro? Pode dizer...

- Não, Carlos. Pelo amor de Deus. Não é nada disso.

- E é o quê?

- Eu cansei, cansei desta vida que estou levando, cansei do meu trabalho. Preciso mudar de ares. Eu mudei e agora preciso mudar de ambiente. Preciso ir em busca de novos prazeres.

- E, porque eu não posso ir junto?

- Não é que não possa. Mas, você não iria. Não vai largar sua carreira, seu reconhecimento...

- Marli, eu te amo. E faço qualquer coisa pra ficar ao teu lado. Só preciso saber se você ainda me ama...

- Eu, eu, claro que eu te amo. Apenas quero mudar de cidade para realizar um antigo projeto de alfabetizar crianças carentes em cidadezinhas do nordeste.

- Se você quiser...

- Eu quero!

- Então, pedirei demissão agora mesmo e vamos para a Bahia reconstruir nossos castelos de areia.



Fau Ferreira
 
P.S. Considero este o conto mais lindo que já escrevi.