POÉTICA DO COTIDIANO

Textos, Frases, Cartas, Poemas, Canções, Diálogos, Interrogações... Todas as palavras que preenchem o nosso dia-a-dia... com muita poesia!

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Poesia

E o que a gente faz com o desejo?

Entope,

Engole,

Sufoca,

Fecha,

Aterra,

Enterra,

Mata...

Mata...

Mata...

sexta-feira, dezembro 10, 2010

AREIA

Os pés caminham descalços
O chão é quente e úmido, macio
A energia vem dele e sobe pelas pernas
Rejuvenesce, transforma, revigora

Cada passo, um sentimento
O caminhar, uma busca
Tudo é difuso, fugaz, vai-e-vem
Escorre, passa, transita foge

O pensamento tranqüiliza:
- O dia está acabando
O pôr do sol, o céu crepuscular

Anúncio de novas possibilidades
E o coração se enche de esperanças:
- Amanhã, o sol nasce outra vez!



Imcompreendida

*Poema já postado no Diário de uma Busca: http://imcompreendida.zip.net/

terça-feira, novembro 30, 2010

Sobre o Tempo

O Tempo que passa e não é aproveitado

Tempo perdido é...
E, se ele passa, bate, apedreja
nos faz virar mulher.


Tudo que existe depende do tempo
se ele não passa,
nada vinga.

Se o tempo pára, tudo vira nada:
fruto não brota, flor não desabrocha

embrião não nasce.


As coisas precisam do tempo
pra nascer, crescer, florescer, desenvolver
e até mesmo morrer.
Se o tempo pára, pára tudo,
pára o mundo.

Passar é o destino do tempo
e ele não tem outra escolha.
Aproveitar o Tempo é uma escolha
ser devorada por ele, já não é.


10/08/2010 

terça-feira, agosto 10, 2010

OURO DE TOLO

Ouro de Tolo - Raul Seixas
 

Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou um dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros

Por mês...


Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso

Na vida como artista

Eu devia estar feliz

Porque consegui comprar

Um Corcel 73...


Eu devia estar alegre

E satisfeito

Por morar em Ipanema

Depois de ter passado

Fome por dois anos

Aqui na Cidade Maravilhosa...


Ah!

Eu devia estar sorrindo

E orgulhoso

Por ter finalmente vencido na vida

Mas eu acho isso uma grande piada

E um tanto quanto perigosa...


Eu devia estar contente

Por ter conseguido

Tudo o que eu quis

Mas confesso abestalhado

Que eu estou decepcionado...


Porque foi tão fácil conseguir

E agora eu me pergunto "e daí?"

Eu tenho uma porção

De coisas grandes prá conquistar

E eu não posso ficar aí parado...

 
Eu devia estar feliz pelo Senhor

Ter me concedido o domingo

Prá ir com a família

No Jardim Zoológico

Dar pipoca aos macacos...


Ah!

Mas que sujeito chato sou eu

Que não acha nada engraçado

Macaco, praia, carro

Jornal, tobog

Eu acho tudo isso um saco...


É você olhar no espelho

Se sentir

Um grandessíssimo idiota

Saber que é humano

Ridículo, limitado

Que só usa dez por cento

De sua cabeça animal...


E você ainda acredita

Que é um doutor

Padre ou policial

Que está contribuindo

Com sua parte

Para o nosso belo

Quadro social...


Eu que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada

Cheia de dentes

Esperando a morte chegar...


Porque longe das cercas

Embandeiradas

Que separam quintais

No cume calmo

Do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora

De um disco voador...









Essa música diz muito do que estou sentindo no momento. Daí que você tem um emprego – coisa que muita gente sonha – um salário razoável, a tal “estabilidade” tão buscada por muitos, uma vida que o povo vive pedindo a Deus.

Mas não é isso, no fundo, no seu íntimo você sente que essa não é a sua vida, não é nada disso que você queria. Essa estabilidade não é o que você queria, não te deixa tranquila, segura, por que a vida que você sonhou não é esta. E você nem pode reclamar com ninguém, porque vão te achar maluca, vão dizer que você tem que dar graças, festejar...

O problema é que o que você tá sentindo só você sabe, só você sabe que “deveria estar contente”, deveria, mas não estar. A sensação de estar sentada “no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes esperando a morte chegar” é tão ruim, parece que voce está muito longe dos seus sonhos, dos seus desejos e você vai murchando, murchando, perdendo a alegria, mas tem que manter o sorriso falso no rosto e achar tudo lindo, e agradecer os parabéns.

E podem dizer que você mesmo assim pode ir atrás dos seus sonhos, mas esquecem que você não tem mais tempo, nem disposição. E você não sabe o que fazer pra curar o vazio de dentro, porque você nunca soube viver na superficialidade.

E você se pergunta o que fazer, se pergunta se está preparado para frustar muita gente que você ama, e se você tem coragem de largar tudo, e o que vai acontecer se voce fizer isso? E se você opta por ficar, e abrir mão do que você realmente quer? Se você se acostumar a viver essa vidnha? Se você aprender a viver no raso?

Todas essas dúvidas, na verdade medos, ficam povoando a sua cabeça – sem respostas. E enquanto você pensa, se pergunta, tem medo, sente angústia, o tempo vai passando, por que ele sempre passa.


sábado, julho 17, 2010

GOSTOS E DESGOSTOS

Quando ele chegou a sua porta todo molhado, debaixo daquele toró, na moto igualmente ensopada, sem blusão, capa ou qualquer outra proteção, ela não quis (ou antes não pode) acreditar. Convidou-o a entrar – era inevitável. Ficaram um tempo parados na porta se olhando, ela sem entender e ele sem explicar. Foi ela quem quebrou o silêncio:

- vou preparar um chá.

- não, não precisa.

- não é nenhum incômodo.

- não é isso... é que não gosto de chá.

Ela ficou parada pensando, tanto tempo, quer dizer, talvez não seja tanto tempo assim, alguns meses, mas de qualquer forma era algum tempo, algum tempo e ela não sabia nada sobre ele, nada sobre os seus gostos ou desgostos, não sabia quem ele era.

Ele continuava sendo para ela aquele mesmo estranho que batera na porta de sua casa numa tarde vazia e que ela deixara ficar. Como fez novamente naquela noite. Passou um café, buscou uma toalha, ele secou-se tirou a camisa, pendurou para secar, sentou-se no sofá. Ela escolheu um CD colocou para tocar, trouxe o café com biscoitos e sentou-se a seu lado.

Ele quis dar-lhe explicações, ela não quis ouvir, não era mais preciso.

- para quê tantas respostas para aquilo que não tem explicação? - disse serenamente.

Ele calou-se e deixou-se ficar como naquele primeiro dia em que chegara a porta dela triste, confuso, quase desesperado e deixou-se acolher pelo olhar doce daquela menina que por mais que quisera e tentara, não conseguia amar, não conseguia sequer conhecer.

Ela deixou-o ficar, mesmo sem amor ou explicações, talvez nada disso fosse preciso, talvez só a presença bastasse, talvez só alguém pra conversar, talvez só um sorriso furtivo, talvez só a dúvida, talvez só talvez.

Conversaram um pouco sobre assuntos aleatórios, do café passaram ao vinho, dos biscoitos aos petiscos. Depois passaram do sofá à cama e dividiram o mesmo lençol, o mesmo calor naquela noite chuvosa, os mesmos corpos, as mesmas salivas e o mesmo sono tranqüilo e profundo.

Na manhã seguinte, ela foi a primeira a acordar, com uma decisão, dessa vez estava disposta a conhecê-lo e não mais deixa-lo ir embora.